Mulher, Bíblia e Nordeste🌺
“A Sabedoria diz, armei minha Tenda”, e está convidando: Venham todas que buscam novos saberes e sabores. Venham comer a minha comida e beber o meu vinho que preparei! Venham, provem do meu fruto: Aquelas que me procuram, me encontram. Meu fruto é saboroso! Todas as minhas palavras são deliciosas! Quem eu sou? Sou Hokmá-Sophia-Ruah, sou espírito feminino de Deus, artesã, mestra da justiça, sopro, vento, ventania que movimenta a vida, cocriadora de todas as coisas. Nasci quando ainda não havia abismos, quando não existiam fontes de águas; antes de serem estabelecidos os montes e de existirem as colinas, eu nasci. Ainda não tinha sido feita a terra, nem os campos, nem o pó com o qual formou o mundo. Quando foram estabelecidos os céus eu estava lá. Quando foi traçado o horizonte sobre a superfície do abismo. Quando foram colocadas as nuvens em cima e estabeleceu as fontes dos abismos. Quando as fronteiras foram determinadas no mar para as águas não violassem a sua ordem. Quando foram marcados os limites dos alicerces da terra. Eu estava lá como arquiteta da criação. Sou aquela que transgride fronteiras, celebra a vida e alimenta todas que se assentam a minha mesa. Minha Tenda, casa cósmica, não tem paredes nem muros, e minha mesa está posta para todas e todos! Estou à entrada da Tenda, e erguendo a voz, clamo em alta voz: Ouçam-me agora, minhas filhas: Como são felizes aquelas que andam nos meus caminhos! Ouçam-me e serão sábias. Venham todas! Venham comer a minha comida e beber o vinho que preparei! Para aquelas que desejam alargar a Tenda, Ela diz: “Vinde a mim, todas e todos que me desejais, fartai-vos de meus frutos. Porque minha lembrança é mais doce que o mel, os que me comem terão ainda fome, os que me bebem terão ainda sede!” Adaptação a partir de Eclesiástico 24 e Provérbios 8 e 9.
“O ladrão vem para roubar, matar e
destruir. Eu vim para que tenham vida e vida em abundância.” (João 10:10)
O discurso
religioso cristão reflete uma das formas mais poderosas através do qual a
violência contra às mulheres se alimenta e se mantém. A Bíblia, como texto
religioso, tem sido usada como instrumento de legitimação, servindo de cúmplice
do pecado da violência sexista e de gênero. Apesar do movimento de Jesus em
nada se assemelhar a religião patriarcal que oprime e subjuga, a tradição
cristã, tornou-se algoz cruel contra a vida e os corpos das mulheres. Por isso,
a leitura feminista da Bíblia tem sido, para nós, mulheres do Grupo Flor de Manacá, caminho de luta e
resistência contra o vírus do patriarcado violento que em nome de Deus tem sido
“um ladrão que veio para matar, roubar e destruir”. Nós, porém, neste 8M, sopradas pela ventania da Ruah,
ocupamos as redes, com nossos corpos, e com junto com a voz feminina de Deus
que grita a favor das mulheres, em Isaías 42:14, gritamos: “Há muito tempo
estive calado. Permaneci quieto e aguentei. Mas agora darei gritos como a
mulher que em trabalho de parto, vou gemer e suspirar” por uma vida respirável
para todas as mulheres!